domingo, 15 de Novembro de 2009

Um dia vais sair de mim...

Na sexta-feira fui sair de novo. Ao início só saía para não te lembrar, para não nos pensar, mas com o tempo habituei-me às saídas todos os fins-de-semana e agora estou mesmo a gostar. Até voltei a beber, eu que me afastei do álcool tantos anos (sabes porquê), agora dificilmente me vejo sem uma vodka preta na mão. Cheguei cedo à discoteca na margem sul, aquela de que já ouvia falar há tanto tempo - até éramos para ter ido juntos à inauguração, lembras-te? Em poucos minutos dirigi-me a um dos bares para aproveitar a primeira bebida grátis da noite. O barman (giro que até dói) disse-me que a vodka preta não estava incluída nas bebidas grátias. Ok, Bacardi com sumo de limão então. Menos de uma hora depois já estava gente suficiente para ir para a pista. Dediquei boa parte da noite a fazer aquilo que agora faço sempre: ver as "vistas", procurar com o olhar um homem giro, até fixar o olhar no dele para lhe chamar a atenção. Bom, isto raramente acontece. Porque ninguém me chama particularmente a atenção (tirando o tal barman e o seu outro colega barman, mas esses eu percebo que são areia demais para a minha camioneta). Olho em volta atentamente, alguns olhares fixam-se no meu, mas o meu não se fixa em nenhum. Lembro-me de ti. Tenho a certeza que, se não te conhecesse e te visse ali, irias chamar-me a atenção. Imagino-te e quase consigo ver-te ali, ao pé da pista (nunca no meio), de copo na mão (provavelmente Malibu com ananás - o que eu gozava contigo, Malibu é bebida de gaja), a outra mão no bolso, os olhos fechados, a cabeça levantada e o corpo a abanar ao ritmo da batida. Vejo-te o cabelo espetado com gel, as calças largas e a t-shirt mais ou menos justa, a pulseira de couro no pulso direito e o relógio que te ofereci no esquerdo. Se não te conhecesse, sim, fixava o meu olhar no teu e tu - que te perdias por raparigas de olhos claros - provavelmente ias corresponder. Quando dou por mim, a primeira bebida já foi, perante o olhar incrédulo da minha amiga, que pediu o mesmo e ainda tem o copo a meio. Vou ao mesmo bar, faço o meu melhor olhar sedutor e peço mais um Bacardi com limão ao mesmo barman giro. Afasto-me já a beber e constato que ele trocou a minha bebida com outra. Não sei o que é aquilo, mas sabe mesmo mal. Não me importo. Percebo que é forte, e é grátis, e a meio do copo já me sinto muito mais leve, por isso continuo a beber. Preciso de te tirar do pensamento. Volto para a pista. Estou a tentar esquecer-te, a conseguir esquecer-te, a abanar o corpo ao ritmo das músicas que adorei por serem tão pouco comerciais. E, de repente, aqueles acordes. Não estava à espera daquilo. Aqueles acordes tão familiares, os acordes que sei de cor, de tantas vezes que carreguei no replay para ouvir a música vezes e vezes sem conta, enquanto pensava em ti. A voz do Bono entra em cena. See the stone set in your eyes/ see the thorn twist in your side/ and i wait for you... Páro de beber e olho em volta. Toda a gente se abana ao som da música, e eu também não páro. Sleight of hand and twist of fate/ on a bed of nails she makes me wait/ and i wait without you... Sinto-te a crescer dentro de mim. With or without you... With or without you... O teu olhar, a tua pele... O teu rosto de primavera. Through the storm we reach the shore/ you give it all but i want more/ and i'm waiting for you... Olho em volta mais uma vez. Há tanta gente no Mundo. Tu foste especial, mas há tantas pessoas lá fora. With or without you... With or without you... I can't live/ with or without you... Um dia vais sair de dentro de mim. Não do teu espacinho no meu peito, mas de mim, da minha pele, dos meus dedos, do nó na garganta que ainda me causas. And you give yourself away/ and you give yourself away/ and you give... and you give... and you give yourself away... Levo o copo aos lábios e dou dois valentes golos naquela mistura horrível que já começa a fazer o chão fugir-me de debaixo dos pés. Levanto a cabeça para o céu e fecho os olhos. Respiro fundo e continuo a ouvir a música... é... um dia tu vais sair de mim.

7 comentários:

Luana disse...

Muito sentido este texto...consigo viver tudo isso que acabas de descrever, quantas noites ja me aconteceram assim...e depois a musica, aquela musica qe inicia na hora certa, parece propositada para nós.
Adorei este texto
Bjinhos

Iúri "Zúluri Regueiro" disse...

katie..

nao foi la mas foi perto...

foi no kensal river...hehehe


ainda bem qeu gostas te..fico contentee

olha como estas?

Sonhadora disse...

Encontro-me em cada palavra tua...
E dói demais... Até ao dia em que "ele" já não irá ser preciso... ***

J.P. disse...

Gosto de te ler, Katie.
Não só porque me revejo no que escreves, mas também porque traduzes muito bem para palavras, o que se passa dentro de ti. Não só no teu peito, mas na tua pele, nos teus dedos, no nó na garganta que ainda te causa... Brilhante. Gosto!

Beijo,

C. disse...

já passei por uma situação muito idêntica. e por isso te digo, acredita, quando menos esperares, ele vai sair de ti ;) beijinho

Mysterious Girl disse...

Adorei este texto Katie, está mesmo sentido...especialmente sentido. E senti também contigo. Beijinho*

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Quando voltares a essa discoteca na margem sul convida aqui a Pipoca. É que dois barmans giros é coisinha que não se vê todos os dias. Fazemos uma dupla, mas eu só bebo vodka, ta?
Sim, um dia ele vai sair de ti e vai ser libertador dares por isso.

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