Eu nem tenho o hábito de deixar aqui mais do que um post por dia. Mas hoje à tarde, quando andava pela blogosfera, num dos blogues que costumo visitar, vi um post em que a pessoa em questão dizia como ficava de coração apertado sempre que via um sem-abrigo. Solidária, fui comentar, pronta a partilhar a dor dela. E foi então que me surpreendi, e muito, pela negativa. Porque havia comentários a dizer coisas como "ah a mim também me fazia confusão mas depois habituas-te". E o mais preocupante é que eram pessoas novas. Depois habituas-te...? Depois habituas-te??!! Ao quê, ao sofrimento dos outros? A ver pessoas que tiveram tanto azar ou fizeram tantas más escolhas que acabaram sem um tecto em cima da cabeça, sem um lar, sem um amigo que lhes estendesse a mão...? Ao facto de aquelas pessoas terem de engolir a sua dignidade, dia após dia, permanecendo de mão estendida enquanto o resto do Mundo passa e finge não ver...? Ao facto de um dia podermos ser nós ali, naquele chão, naquelas roupas imundas, naquele orgulho engolido...?? Eu não me habituo, desculpem lá. Eu recuso-me a habituar-me. E recuso-me a virar a cara quando os vejo. E hei-de sempre dar uma moeda àquela velhinha do metro que toda a gente ignora menos eu. E eu vejo muito bem como algumas pessoas me olham, como se estivesse a alimentar um parasita, mas nem quero saber. Essas pessoas é que deviam ter vergonha, porque podem comprar roupa nova todos os meses e não podem dar uma moeda a quem não tem que comer. E eu sei que não vou mudar o Mundo. Mas também sei que um dia um grande senhor disse esta frase, e é uma das que faz mais sentido para mim: "Sê a mudança que queres ver no Mundo.". Pode ser mais difícil do que habituar-me, mas eu recuso-me (e bato o pé se for preciso!) a acreditar que são estas as pessoas que vão habitar o Mundo daqui para a frente, com tão pouca fé na humanidade e tanta coragem para se habituarem à miséria que nos rodeia no dia-a-dia.
Este post já vai ficar um bocado longo, mas deixo este texto aqui na mesma... Porque tem tudo a ver.
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O Mundo, como ele é hoje, incomoda-me. Sempre fui sonhadora por natureza, desde pequena que sonhava que, um dia, ia adoptar uma criancinha daquelas que aparecem na televisão, com uma barriga grande demais da fome, e com os olhos vazios demais da solidão. Ia ficar com ela e tomar conta dela, e dar-lhe tudo o que uma criança deve ter. E faria a diferença na vida de alguém. Hoje, ainda acredito que vou mudar o Mundo. Ainda acredito que, um dia, as pessoas vão dizer "Antigamente, os animais eram maltratados e utilizados em circos, em touradas, eram torturados para mero prazer dos homens que se achavam mais viris por os enfrentarem. Eram esfolados, muitas vezes ainda vivos, apenas para que as pessoas pudessem andar por aí enfeitadas com as suas peles. Eram abandonados à sua própria sorte (ou azar) e ninguém fazia nada. Antigamente, havia pessoas a viver nas ruas, porque tinham tido azar demais na vida e não tinham uma casa para viver nem ninguém para as ajudar. Morriam de frio nas ruas em que viviam e as pessoas que tinham casa e que passavam por elas viravam a cara para o outro lado para não terem de encarar a mão que se estendia a implorar uma moeda, para não terem de ver a miséria que as rodeava. Antigamente, havia milhares de crianças a morrer de fome, de sede, de doenças que tinham cura, apenas porque não havia meios (nem vontade...) para as ajudar. Antigamente, gastava-se milhões de euros em futebol, em filmes, em espectáculos de entretenimento, mas a pobreza, a fome, o frio, a sede, as doenças, a solidão, permaneciam por todo o lado porque não havia dinheiro para resolver estes problemas. Antigamente, havia crianças que não podiam ir à escola porque os pais não tinham posses para lhes garantir algo tão básico como o direito à educação. Antigamente ninguém se preocupava com a poluição e o meio ambiente, e a Terra estava em risco de se tornar inabitável, e ninguém queria saber.... Antigamente, o Mundo era um sítio feio para se viver... Felizmente, hoje é um sítio muito melhor." Eu ainda acredito que um dia as pessoas vão dizer isto. Basta que algumas pessoas tenham a coragem de dar um passo em frente para mudar o Mundo. Talvez não lhe devesse chamar coragem, porque já acho que coragem é o que é preciso para ignorar todos os problemas que nos rodeiam.... Eu tento mudar o Mundo aos poucos. Dou tempo, dou atenção, dou carinho, dou bens materiais, dou o que posso. Mas dou. E tu, vais continuar a ter a coragem de ignorar?